terça-feira, novembro 25, 2008

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui na terra a fome continua
A miséria e o luto
A miséria e o luto e outra vez a fome
Acendemos cigarros em fogos de napalm
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza.
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejos
De mais alto que nós, de melhor e mais puro.
No jornal soletramos de olhos tensos
Maravilhas do espaço e de vertigem.
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede onde não chove.
Mas a terra, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalm são brinquedos)
Onde come brincando só a fome
Só a fome, astronauta, só a fome.
José Saramago

segunda-feira, novembro 10, 2008

Envolver Todas as Partes


«É preciso partilhar e haver um envolvimento para que a luta seja travada por toda a gente»

quarta-feira, novembro 05, 2008

Barack to the Future

"Uma luz ao fundo do túnel"
* * *
Barack might mean Change!

segunda-feira, outubro 27, 2008

O mau Sal

"Se existem 700 mil milhões de dólares para salvar Wall Street da bancarrota, mas não existem 25 mil milhões para salvar 25 mil crianças de morte certa todos os dias, então eu chamo a isso bancarrota moral."

Bono

sexta-feira, outubro 10, 2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

Terra que me corre em veias

mudei desde que fui
mudei muitas das cores que ainda vejo depois de ter revisto outras
mudei de muitas maneiras
mudei porque encontrei raízes
por ter pegado na terra do chão
por ter desfeito os torrões em pó de terra
por tudo isso mudei
quando penso, mais saio e vejo, sinto o teu beijo
a terra, o cheiro, o toque no seixo encerra e
me faz ressaltar nas águas calmas.
Ando em repiques até que a terra me pare. descansar.
preciso de descansar.
br1

terça-feira, setembro 02, 2008

A Hen-Riq

Na profundidade do ciclo das coisas
o mundo renova-se em mortes vitais na renovação do calor
o mundo mata matando-nos nas ilusões do caminho e da dor.

A cadência de um corpo que finda em passos curtos
o falhar das regras infectadas pelos teus gritos surdos

o tempo fica fotografando em câmara lenta,
fragmentado como as memórias que nos deixa.

descansa, descontrai...
deixa-te ir na corrente,
não te preocupes que a esfera continua
não toca, mas perdura
e sabes que sempre te recordaremos com os teus palcos de loucura
e
sabes que sempre te reconheceremos na sensibilidade... que foi e é só tua.

Abraço eterno

...

terça-feira, agosto 19, 2008

segunda-feira, agosto 11, 2008

Tributo ao lutador pela Liberdade - Mahmud Darwich

NESTA TERRA


Nesta terra há coisas que merecem viver: a hesitação de Abril, o cheiro do pão ao amanhecer, as opiniões duma mulher acerca dos homens, os escritos de Ésquilo, o despertar do amor, a erva sobre as pedras, as mães erguidas sobre um fio de flauta e o medo que a lembrança inspira aos conquistadores.

Nesta terra há coisas que merecem viver: o fim de Setembro, uma mulher que entra nos quarenta, com todo o seu vigor, a hora do sol na prisão, as nuvens que imitam um bando de criaturas, as aclamações dum povo pelos que caminham, sorridentes, para a morte e o medo que as canções inspiram aos tiranos.

Nesta terra há coisas que merecem viver: nesta terra está a dona da terra, mãe dos prelúdios e dos epílogos. Chamavam-lhe Palestina. Chama-se ainda Palestina. Minha Dama, eu mereço, mereço viver, porque tu és a minha Dama.


TAMBÉM NÓS AMAMOS A VIDA


Também nós amamos a vida quando podemos.
Dançamos entre dois mártires e no meio deles erguemos um minarete de violetas ou uma palmeira.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Ao bicho-da-seda roubamos um fio para tecer o nosso céu e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia para a rua como um dia bonito.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Na morada que escolhemos, cultivamos plantas vivazes e recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra-a-pedra. Tu, ó raio, ilumina a nossa noite, ilumina-a um pouco.

Também nós amamos a vida quando podemos.

tradução de Albano Martins


Em memória de
MAHMUD DARWICH
(1942 - 2008)
(RIP)

*
Mahmud Darwich nasceu em 1942 em Birwa, na Galileia, a poucos quilómetros de São João d'Acre. Em 1948, as tropas israelitas obrigam-no a partir com a família para o exílio, do qual regressa clandestinamente, um ano depois. Cinco vezes preso, entre 1961 e 1967, refugia-se, em 1970, no Cairo e, em 1972, em Beirute, no Líbano, que abandona, entretanto, em 1982, aquando da invasão do país pelas forças judaicas. A sua vida repartiu-se nos últimos tempos, entre Amã, na Jordânia, e Ramallah, na Palestina. Considerado um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos, é autor duma extensa e complexa obra, atravessada ora por um tom revolucionário e patriótico, ora por um sopro épico e lírico. É também autor de diversas obras em prosa, onde estão reunidos os numerosos artigos publicados na imprensa, designadamente na revista literária al-Karmil, que fundou em Beirute e dirigiu a partir de Ramallah.

quarta-feira, agosto 06, 2008

1atemática≠

descreve-se um arco
arqueia-se o corpo,

sacia-se o momento

em tempos de tempo morto


no alpendre do grito

a sombra é um arrastar de profundidade


o olhar fecha-se... à velocidade de uma ferida que recupera

onde o ar seca

-

o teu texto se alonga ao desnecessário
+
chato

+

plano

por
x

triste

mas

÷-te
em mil
e perco-te nos molhos da tua alma.

terça-feira, julho 29, 2008

Conversa sobre um artigo do Expresso

Conversa animada com alguém que se diz dono da verdade.
Aquelas pessoas que praticamente representam deus na terra, gente fixe, acho eu!

Depois de um artigo paupérrimo do Expresso em que faziam uma entrevista a um ex-combatente israelita. Para ter a ideia da qualidade, o título era:
"Entrevista com ex-juiz militar israelita
A luta anti-terrorista de Israel é mais humanitária do que a dos EUA"
fantástico não?

então passo a apresentar o meu comentário inicial:

"fico revoltado com este Jornalismo. triste, tendencioso e horrendo.
É de quem não sabe, nunca estudou nada se não livros tendenciosos.
Convido-vos a ir à Palestina, aos campos de refugiados (das suas próprias terras onde nasceram) e ver os crimes contra a humanidade que diariamente acontecem.
Como é possível no Expresso haver este tipo de trabalhos?!!? como é possível? que horror."

a que obtive o comentário de um ou uma tal de "odisseia na terra":

"ISRAEL TEM DIREITO A DEFENDER-SE DE QUEM O PRETENDE DESTRUIR.

QUANTO A ESSA TIRADA ARMADO EM EXPERT RECOMENDO-TE QUE FALES COM QUEM VIVE EM COLONATOS OU PERTO DA FRONTEIRA E DEPOIS CONSTATARÁS O QUANTO EQUIVOCADO ESTÁS."

ao que respondi:

"Gosto do discurso de pessoas que são superiores a outras. Gosto do discurso da supremacia dos povos. Gosto de religiões absolutas. Gosto de gente ignorante e que defende tudo isto. sabes porquê? porque é tão fácil refutar! já estive em campos de refugiados, mas nem me vou estender em comentários porque há quem esteja fechado o suficiente para nem discutir. Os colonatos, como bem os descreveste, são habitados por colonos, que totalmente by chance não estão a habitar a terra de ninguém. Estão em territórios ocupados por seres humanos (não sei se sabes do que se trata) que eram um povo feliz e onde havia judeus, cristãos e muçulmanos em paz absoluta.. porque historicamente são povos que têm o mercado como forma de vida e por isso não se ganha em tempos de guerra. Mas com 1948, passou-se a ter um pseudo-estado superior e nefasto para os locais. Conheço familiares de muita gente que morreu durante a ocupação animal, e que até aos dias hoje professa o terror, que naturalmente quem é oprimido e já perdeu tudo... de cabeça perdida, sem mais sentido... naturalmente, responde. Podes falar com as pessoas desses colonatos, mas pergunta-lhes o que é que estão lá a fazer... pergunta só isso? a resposta é que eles são um povo superior e que aquela terra lhes foi prometida por deus. A minha resposta é: certo, exacto, era mesmo isso, façam então tudo o que for preciso para lograr com tão superiores motivos, que venha quem vier... mate-se quem se matar.. se logrará belicamente. És pequeno ou pequena, sabes... lê Noam Chomsky, procura pelo Rabbi Yosrael Weiss. Aprende e evolui. Pobre. Mas sabes... a culpa nem é tua, é do expresso que infelizmente ainda compra notícias como estas. A ignorância é vasta. Invistam na educação e trabalhem para a excelência, mas sobretudo... questionem e questionem-se."

e ao que ele respondeu em grande:

"Aquela terra é sagrada; foi dada por Deus ao povo judeu.מדינת ישראל‎

Tu que és tão dado ao relativismo fica com esta: os palestinianos pensaram que matavam os judeus עלייה e...têm levado porrada, muita porrada

Gostaste?

Por ISRAEL, tudo!"

depois disto já não consegui ir mais além. não tive coragem de desafiar the beast.

e é assim... jogamos jogos de guerra com humanos, comemos xadrêzes e fazemos história.

quarta-feira, julho 23, 2008


Alegoria às cores artificiais que temos.. e quão fechados estamos numa caixa...
uma possível solução seria desenvolver asas e sair... mas para isso será necessário amadurecermos.

terça-feira, julho 22, 2008

Saúde, Envolvimento e Educação para o Desenvolvimento

A educação, o emprego e a saúde foram identificados como questões políticas chave que afectam muitas crianças e jovens de todo o mundo. Daí a nossa natural preocupação e o nosso óbvio envolvimento neste trabalho que requer sustentabilidade e um enorme investimento.

Há uma necessidade premente de uma acção colectiva urgente para desenhar uma agenda nacional e internacional de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos.

Os governos devem assegurar que crianças e jovens sejam ouvidos e sejam considerados importantes na construção das novas políticas e que não sejam apenas alvos nas suas intenções. Que tenham voz no desenhar das políticas, planos e prioridades nacionais e internacionais ligadas ao desenvolvimento, que tenham uma participação activa nas tomadas de decisão e sua execução. Os jovens de hoje em dia fazem parte da maior geração de População Jovem da história da humanidade - 3 mil milhões de pessoas com menos de 25 anos e 1.06 mil milhões com idades compreendidas entre os 19 e os 25 anos. (UNFPA 4, SWOP 5, 2005).

Os países mais pobres são os detentores de 85% da população com menos de 25 anos. (UNFPA, SWOP, 2005).

Adolescentes entre os 10 e os 19 anos, em particular as raparigas, deverão ser os grupos prioritários à intervenção em matéria de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, uma vez que a discriminação sexual com base no género leva a que enfrentem maiores riscos no acesso à educação, maior risco de abuso sexual, gravidezes precoces, práticas tradicionais nocivas, tráfico, infecção pelo VIH – Sida, segundo a UNAIDS, quase um quarto das pessoas seropositivas tem menos de 25 anos.

Na mesma base, a violência e discriminação com base no género, orientação sexual, opções político-religiosas-culturais, estatuto sócio-económico e estatuto na família são factores obstrutores à Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos, o que levam à exclusão e pobreza.

Certo é que os Estados e os Governos em geral têm que trabalhar mais, nomeadamente na promoção dos programas específicos de educação.

Como diria Helena Cidade Moura, a educação e a literacia são a base para um desenvolvimento concertado e positivo. A Literacia vai muito mais além do saber ler e escrever, temos que formar jovens com capacidade de decifrar mensagens, formar jovens que possuam capacidade lógica na escolha e decisão.

E por vezes perdemo-nos em campanhas que apontam os problemas somente aos países do sul, por vezes esquecemo-nos que para além dos conceitos, estão realidades que não têm hemisférios, que não têm cores ou pré-conceitos.

Claro que temos de continuar a pressionar os Governos para que cumpram os seus compromissos, seja a ajuda pública ao desenvolvimento que tem que ser incrementada e chegar aos tão desejados 0.7% do PIB, claro que temos que pressionar os Governos doadores para que acabem com as vergonhosas dívidas dos países mais pobres, claro que temos que pressionar e pressionar, mas não nos podemos esquecer dos nossos problemas internos, há que investir em Portugal, debater e resolver os nossos problemas de pobreza, exclusão, direitos e equidade para todos e todas.

Porque apesar de constantemente ouvirmos palavras como as do Ex Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que afirmava que “Não é possível alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), particularmente a erradicação da pobreza extrema e da fome, se não se abordarem de frente as questões da população e da saúde reprodutiva. E isto significa intensificar os esforços para promover os direitos da mulher e efectuar maiores investimentos na educação e saúde, inclusive à saúde reprodutiva e planeamento familiar”;

Acabamos naturalmente por questionar os caminhos e distâncias entre as palavras e os actos. Estas declarações são de 2005, mas já em 1921 Almada Negreiros disse "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - Salvar a Humanidade." e nos dias de hoje continuamos com frases idênticas num mundo já pseudo-desenvolvido, centrado em tantas ¿verdades? absolutas. Será que vivemos numa caverna platónica?

Aquilo que sabemos é que boas intenções não chegam. Não chega falar, não chega ter reuniões de alto nível com altos dirigentes, não chega dar um kilo de arroz... Temos que passar a acções sustentáveis, temos que olhar ao nosso redor e começar a construir aquilo que queremos deixar a quem venha depois.

Acredito que a sociedade civil (todas e todos nós) temos a possibilidade de contrariar toda esta alalia, toda esta resistência inoperante.

Acredito que podemos mudar o rumo das coisas, acredito que quando nos levantamos podemos criar efeitos borboleta por esse mundo fora.

Por isso não podemos ficar sentados numa caridade existencial, num vácuo hermético televisivo. Temos que sustentar as nossas acções e unirmo-nos em torno de causas que melhorem efectivamente o mundo.

Manifestemo-nos pelos problemas que afectam o mundo e que sabemos que são resolvíveis!

Basta querer, basta pressionar, basta trabalhar com sustentabilidade.

Por tudo isso, continuamos este ano a co-organizar o Levanta-te porque acreditamos que também são necessários gestos simbólicos de mobilização. Este ano decorrerá nos dias 17 (Dia Mundial da Luta contra a Pobreza), 18 e 19 de Outubro.


3 dias de actividades em que tu podes ter um papel fundamental. Vai acompanhando o site www.pobrezazero.org porque teremos novidades em breve.


Precisa-se cumplicidade, pois

SOMOS A PRIMEIRA GERAÇÃO QUE PODE ERRADICAR A POBREZA


segunda-feira, julho 21, 2008

Mais um Projecto


CONCERTO
- 1 de Agosto

O Forum Castelo Branco, em parceria o Programa Pobreza Zero, convida-te a passar uma noite inesquecível.
Uma verdadeira maratona musical durante a qual poderás assistir às actuações dos Umeed, Norton, Quinta do Bill e do Dj Júlio Heitor - RFM.

Para além da música, esta noite representará também uma autêntica luta contra a pobreza.
O preço de cada bilhete é de €5 e com ele receberás uma pulseira especial da Pobreza Zero.

O objectivo deste espectáculo é ajudar 172 famílias vítimas das cheias em Moçambique, através do Projecto de Segurança Alimentar em Moçambique da Oikos - Cooperação e Desenvolvimento.

Este evento será assim também uma grande campanha de solidariedade social de que todos e todas nos devemos orgulhar.

Junta-te a nós e aparece no Forum Castelo Branco dia 1 de Agosto para participares nesta causa.

Traz uma t-shirt branca como símbolo desta luta e torna este combate visível a toda a gente.

Programa:
21h30 I UMEED
22h30 I NORTON
23h30 I QUINTA DO BILL
01h00 I DJ JÚLIO HEITOR - RFM


Mais Informações no local habitual ;)

www.pobrezazero.org

Somos a primeira geração que pode erradicar a Pobreza - yes we can

quinta-feira, junho 26, 2008

Madeleine Beth McCann

Afinal ela está viva e quer ser minha amiga!
Alguém que diga a quem de direito que a Maddie está e esteve afinal este tempo todo no Hi5!

quarta-feira, junho 25, 2008

In Family

Mas entre marido e mulher não dizem os conservadores... não se mete a culher??

Então não percebo o pedido público de desculpas da Heinz

"A publicidade não agradou aos espectadores britânicos e a Heinz "acabou por pedir desculpas após ter recebido mais de 200 reclamações dizendo que a campanha era ofensiva e inapropriada", lê-se no jornal "The Guardian".

A publicidade para a nova maionese da Heinz, que deveria durar cinco semanas, foi retirada do ar após oito dias. Em declarações ao "The Guardian", o director da Heinz no Reino Unido justificou este fim antecipado: "Temos como nossa política ouvir os consumidores. Reconhecemos que alguns deles levantaram preocupações sobre o conteúdo do anúncio e isso levou-nos a suspendê-lo", disse Nigel Dickie." in Expresso on line


quarta-feira, junho 11, 2008

A Pale Blue Dot

O questionar da nossa gloriosa e superior existência.
sobre quê? sobre quem?

terça-feira, maio 27, 2008

Não à Crise Alimentar!!!

Somos a primeira geração que pode erradicar a Pobreza!!!

www.pobrezazero.org

terça-feira, maio 20, 2008

O Livro Branco

Desde à algum tempo que tenho trabalhado com o conceito de livro branco,
que no conhecimento geral se encaixa em serem livros que estão abertos e servem de base a uma discussão sobre algum assunto que naturalmente se encaixe em algum fenómeno social.
Temos o livro branco da juventude, das relações laborais, do desporto, da ciência... sei lá, estou certo que conhecerão outros mais.

Ora bem... depois de definidos os conceitos e apresentadas as ideias... passo a explicar o leit motiv de um texto meu sobre isto.
__

Eu adoro transportes públicos, adoro ver, olhar, tocar, sentindo a génese Sartriana do comportamento humano(?) desde o jorrar matinal até ao poente murchar do final do dia solar.
Nada melhor do que começar o dia a tentar perceber, imaginar, rescrever, refazer o dia-a-dia de cada pessoa que se desenha ao meu olhar...
Ao mesmo tempo aproveito o bendito Metro diário (o único espaço onde tenho liberdade mental) para ler o meu caro Keil do Amaral...
estes 20 minutos são para mim como o cheiro do café ao acordar.

Então na sexta feira passada ia para casa e à minha frente está uma senhora a ler um livro... branco.
Imediatamente percebi que estava forrado a branco... e imediatamente pensei...
"que horror de gosto... forrar um livro com papel branco para proteger..." pensei que se perderia o próprio cheiro do livro, que se estava a vestir o livro com um fato de treino e mocassins num domingo de centro comercial... sei lá... gosto alternativo, pronto.
Na segunda feira de manhã encontro uma pessoa diferente com um livro forrado com papel branco...
Imediatamente acaba o sentido de moda, de mau gosto... para passar a ser um fenómeno comportamental, comprovado pela manhã do dia de hoje onde mais uma senhora se sentou à minha frente com um livrinho branco forradinho.

Avento (adoro aventar) as hipóteses...
- uma questão de privacidade "eu leio o que quero e o que leio é só meu!!!"
- uma questão de insegurança "não quero que me julguem pelo que leio..." ai os pre-conceitos
- uma questão de perda da pseudo-intelectualidade "não quero que me vejam a ler um livro do..."
entre outras tantas possíveis razões...

mas acabo por pensar que pelo menos estas três possibilidades são, qui ças, as mais freqüentes.
o que me mata bastante.

estas pessoas ao fazerem isso, para além de me fazerem sorrir no canto da minha igual pseudo-intelectualidade... é como se me batessem com o livro forradinho.

Eu viro assim o ombro, encolho-me ligeiramente para o lado e digo: vá... bata-me lá! bata mesmo... a sério!